Patricia Maria da Fonseca Rodrigues Organista
O TEMA DE ESTUDO
A
escolha do tema camelô como pesquisa, deu-se por eu já ter tido a oportunidade
em outrora de aplicar questionários aos camelôs do centro da cidade do Rio de
Janeiro. E como já tinha passado pela experiência de aplicar questionários e de
ter tido conversa informal com os entrevistados, achei mais fácil optar por
este tema, haja vista o curto espaço para a pesquisa e o conhecimento prévio
sobre o tema.
Foquei-me no camelódromo da cidade de Campos dos Goytacazes
para que esta pesquisa etnográfica fosse possível. A pesquisa, em que pese o
pouco tempo para realizá-la, teve dois objetivos: 1) identificar quantos eram,
escolaridade, tempo que atuam como camelô, se já trabalharam com carteira
assinada, gênero – se maioria homem ou mulher-, se pretendem atuar no “mercado
de trabalho formal”, renda; 2) construir através de alguns personagens, cuja
escolha inicial se daria pelo tempo de atuação no mercado informal, trajetórias
de vidas que pudessem fornecer um conhecimento mais aprofundado que a aplicação
do questionário fechado não poderia alcançar.
A hipótese que orientou esta pesquisa foi a de
que a criação de um mercado para o trabalho informal implica no reconhecimento
deste não mais como resquício de um passado a ser superado pela civilização
industrial, mas, ao contrário, como condição do processo de exclusão permanente
do sistema capitalista que gera sem parar uma “massa” de desempregados e, por
isso, a intervenção do poder público na tentativa de ordenar o espaço público.
Em outras palavras, a hipótese de que o camelô não é um personagem contingente
nos espaços urbanos, mas permanente e que a fronteira entre formal e informal
tem se tornado muito mais fluída e líquida do que era até o último quartel do
século passado.
Quanto
aos objetivos, o primeiro não foi atingido, posto que não consegui aplicar os questionários
aos trezentos e cinquenta permissionários, de acordo com os dados da Prefeitura
Municipal de Campos dos Goitacazes pela falta de tempo e também pela
resistência de muitos. Já quanto ao segundo, entrevistei com maior pormenor
trinta camelôs, o que me permitiu verificar o que abaixo transcrevo.
DAS DIFICULDADES ENCONTRADAS
Munida
de uma leitura breve sobre o tema que embasou a construção do questionário me
dirigi, ao camelódromo para dar início a pesquisa. De imediato procurei pelo
presidente da associação com intuito de explicar-lhe a pesquisa, bem como para
que o mesmo me apresentasse aos camelôs. Infelizmente não o encontrei e como o
tempo era curto, não mais esperei pelo contato com o presidente da associação e
me dirigi diretamente aos camelôs para realizar as entrevistas. A partir deste
momento percebi que o “outro”, o “estranho”, o “exótico” era minha pessoa,
minha presença num lugar em que não conhecia ninguém e, portanto, não tinha por
parte deles a menor confiança.
Mesmo
explicando que lá estava para fazer um trabalho para universidade, na verdade,
ao invés de inquerir, algumas vezes fui inquerida e alguns com certa
severidade. Não foram poucas às vezes em que no meio da explicação do que
estava fazendo era cortada pelos entrevistados que passavam a assumir a
condição de inquisidores. As perguntas mais comuns foram: “o resultado desta
pesquisa vai ser entregue à prefeitura?”, “o que você fará com essas
informações?” Algumas pessoas diziam que
não tinham tempo para responder, outras, após muitas explicações aceitavam
responder o questionário, mas nem todas as perguntas. Perguntas como, por
exemplo, remuneração, como conseguiram os “boxes” pareciam soar como uma
intromissão descabida e sem propósito, uma invasão de privacidade cometida por
uma estranha que “queria saber demais”.
Não
foram poucas as resistências encontradas para conseguir as entrevistas, o que
confirma a assertiva da necessidade de estabelecer laços de confiança com os
entrevistados. Talvez, não posso afirmar com veemência, que a inserção no campo
através da mediação do presidente da associação funcionasse como um facilitador
e me impediria de ser vista como o “outro”, o “estrangeiro”. De toda a sorte,
durante as duas semanas que tive para realizar e analisar as entrevistas com os
empecilhos apontados me fez adotar as seguintes estratégias: 1) aplicar o
questionário àqueles que se dispusera a responder; 2) anotar “mentalmente”
algumas observações que considerava importante durante as conversas; 3) buscar
dentre àqueles que responderam o questionário, os mais solícitos e com eles
fazer a sua trajetória de vida.
DA PESQUISA
O
camelódromo instalado a mais de vinte anos no centro da cidade de Campos é um
espaço que os comerciantes têm para vender suas mercadorias e para as pessoas
que moram no local ou mesmo os “turistas” consigam comprar mercadorias a preços
mais baixos do que em lojas comerciais. Pelas pesquisas que fiz, este espaço
foi criado pela Prefeitura a mais de vinte anos com o intuito dos camelôs terem
um espaço próprio e concentrado. No início os proprietários receberam o direito
ao box por meio de um sistema de cadastro. O box não podia ser repassado por
meio de venda ou de aluguel em hipótese alguma. Se o proprietário do box não
quisesse mais, deveria devolvê-lo à prefeitura. Mas, com o passar dos anos,
tudo o que não podia ser feito, ocorreu. Das trinta pessoas que eu entrevistei,
só cinco são donas de fato do espaço. As outras pessoas venderam os boxes por
preços semelhantes às de uma loja no centro da cidade, outras
passaram a alugar para terceiros. Funciona de domingo a domingo de acordo com
cada proprietário. De segunda a sábado as bancas ou boxes abrem na sua maioria.
O horário de funcionamento é de oito da manhã às dezenove e trinta nos dias de
semana. Aos sábados funciona das oito às quatorze horas e aos domingos quem
quiser abrir, não é obrigado, abre das oito horas até o meio dia. Durante a
semana quem não tem interesse, fecha mais cedo, mas o horário de fechamento das
bancas não pode ultrapassar o horário das dezenove e trinta horas.
Entrevistei
em sua maioria jovens mulheres de 18 a 24 anos de idade, todos eles
funcionários. Os mais velhos em idade, eram donos dos boxes. Dos donos, só
consegui fazer a pesquisa com cinco pessoas porque as outras que se diziam
donas, quando perguntava se queria participar da pesquisa diziam que não podia
dar a entrevista naquele momento. A maioria dos entrevistados é do bairro de Guarus,
mas, há também pessoas que moram no
bairro da Boa Vista, Jardim Carioca, Ururaí e só uma mora no centro da cidade.
A
maioria das mercadorias que esses comerciantes vendem são celulares, baterias
para os mesmos, pilhas, antenas para televisão, tinta para impressora, capas
para Cds, Dvds, bolsas, mochilas, carteiras, cintos, óculos de sol, sombrinhas,
sandálias do tipo rasteirinha, sandálias de plástico. Os box que vendiam Dvds e
Cds pirata, os entrevistados pediram, quase imploraram para que eu não
coloca-se que eles vendiam esse tipo de mercadoria na pesquisa. As mercadorias
em média são compradas em São Paulo e de todos os entrevistados, um só disse
que comprava direto do fornecedor em Macaé. Quando perguntava se eles tinham a
nota fiscal das mercadorias, os entrevistados que eram funcionários diziam que
não sabiam e os donos diziam que eu queria saber demais. Só uma entrevistada, a
que compra as mercadorias direto do fornecedor
que deixou “escapar” que as mercadorias de São Paulo não tem nota
fiscal.
Dos
funcionários, o que mais me chamou a atenção foi que são jovens sem muita
perspectiva de melhora da vida profissional. Trabalhando como camelôs com uma jornada de 10 horas diária de trabalho sem
horário de almoço (almoçam no local), muitos deles não se importam em trabalhar
sem carteira assinada. Alguns até acham que com o grau de escolaridade baixo, o
que conseguiram já era muito. Outros, já haviam terminado o Ensino Médio e
mesmo assim não lhes passava pela cabeça cursar uma universidade. Os entrevistados
homens em especial, só falavam em cursos técnicos, pois para eles era o
passaporte para um emprego certo. Das jovens que entrevistei só uma havia
cursado uma universidade. Ela terminou o curso de Pedagogia na UFF- Niterói no
ano passado, ou seja, em 2012 e estava trabalhando como camelô para passar o
tempo. Perguntei por que não procurou um colégio particular para ministrar
aulas, e a resposta que ela me deu foi que para ser explorada em lugar que paga
pouco, ela não se importava em ser explorada ali no camelódromo, porque nesse
tipo de ocupação ela estava ganhando melhor do que como professora e também não
teria que aturar coordenador(a) e pais de alunos. Entrevistei também uma mulher
de 32 anos, viúva e que é funcionária. Só ela pensa em trabalhar em uma empresa
que assine sua carteira, mas só se obter um salário melhor do que ela ganha
hoje e com horários flexíveis, pois tem um filho pequeno para criar.
Entrevistei ainda um rapaz com 24 anos e que pensa em voltar aos estudos, mas
não para trabalhar em empresa e sim para concretizar o sonho de ter um curso
profissionalizante e quem sabe abrir seu próprio negócio. Quando perguntei
porque não queria trabalhar em uma empresa e ter um trabalho com carteira
assinada, a resposta que ele me deu é que não gostaria de passar pela vergonha
de dizer que é um ex- presidiário.
Em
média o que os entrevistados que são funcionários ganham são dois salários
mínimos mais auxílio alimentação, auxílio transporte, 13° salário no fim do ano
e 1/3 de férias. O que distingue um trabalhador formal para o informal, no caso
deles é justamente o que os fariam não serem informais, a carteira de trabalho
assinada.
Já
os donos das bancas ou box, que foram cinco os entrevistados,dois homens e três
mulheres, todos eles com mais de quarenta anos, se sentiam satisfeitos pois
além de não estarem trabalhando ou sendo explorados por outros (eles quem
exploram), para o que ganham está muito bom, “bom até demais”, é a fala de um
deles, porque além de não terem um grau de instrução elevado, tiram em média por
mês, em torno de 10 a 12 mil reais bruto. Para essas cinco pessoas, além do
salário bem elevado para quem não teve “tempo” para estudar, serem “donos” de
si, é o maior orgulho. O mais interessante acerca dos camelôs que são donos das
próprias bancas, foi uma senhora de cinquenta anos, que além de ter aquela
banca, ela tem mais duas, uma em
sociedade com a filha, que fica situada na praia do Morro em Guarapari, que rende em
média por mês 14 mil reais bruto e outra dela mesma em Aracruz no Espírito
Santo, que rende em média 10 mil reais bruto. Ela vende na banca sandálias,
tipo rasteirinha e sandálias de plástico. Perguntei a ela porque três bancas em
lugares diferentes, e ela me respondeu que era um sonho que ela estava concretizando
depois de um casamento de anos mal sucedido.
Conclusão do estudo etnográfico:
Posso
concluir que no período de duas semanas, três dias de entrevista em cada
semana, e em horários diferentes, a realidade das pessoas jovens que eu
entrevistei, é que não importa o que elas realizam nos seus trabalhos, se são
exploradas ou não, se tem carteira assinada ou não, o que importa mesmo é o
hoje, e o que eles precisam hoje é de
uma ocupação que dê a eles um meio de estarem com dinheiro. E não importa
também o amanhã. A carteira assinada não é o fator principal, o dinheiro que
ganham é o que vale a pena para eles. Contentam-se em serem vendedores e não
tem objetivo traçado, uma meta para o futuro. Se tem dinheiro para pagar o lazer no final de
semana e não estão passando fome é o que importa. Dos entrevistados jovens, só
duas mulheres tinham filhos e moram com seus pais. Essas sim pensam em voltar
aos estudos, mas não agora. Dos entrevistados mais velhos, eles disseram que fizeram
um bom negócio quando escolheram trabalharem para eles. Uma das entrevistadas,
disse que se trabalhasse em uma loja, por exemplo, ela jamais iria comprar um
terreno, construir uma casa confortável com piscina e jardim e não teria
condições de comprar um carro do ano, “em parcelas,” diz ela.
A
pesquisa que fiz foi importante para que eu tivesse um retrato do que acontece
hoje na cabeça dos jovens das classes desfavorecidas e que no mundo do trabalho
informal, o que importa, é o hoje, não estão preocupados com o amanhã, a
carteira de trabalho assinada não é mais o sonho de muitos. Para os
entrevistados mais velhos, como ganham hoje acima da média para o grau de
instrução que tem, o hoje também é o
mais importante porque o que resta para eles é viverem a vida, trabalhar, ter
algum lazer com a família no final de semana. Já para o futuro, três deles
disseram que fazem uma poupança para se algum dia precisarem ficar parados por
estarem doentes.
REFERENCIAS
BIBLIOGRÁFICAS:
BIONDI,
Karina. Junto e Misturado: Uma etnografia do PCC. ED. Terceiro Nome
FREITAS, Carlos
Roberto Bastos. O Mercado Municipal de Campos dos Goytacazes: A sedução
persistente de uma instituição pública. UENF,2006.
Apresentado como requisito à obtenção de grau da disciplina de Antropologia II.
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