sábado, 23 de março de 2013

"O Camelódromo da cidade de Campos dos Goytacazes: um estudo etnográfico"



 Patricia  Maria da Fonseca Rodrigues Organista

O TEMA DE ESTUDO

         A escolha do tema camelô como pesquisa, deu-se por eu já ter tido a oportunidade em outrora de aplicar questionários aos camelôs do centro da cidade do Rio de Janeiro. E como já tinha passado pela experiência de aplicar questionários e de ter tido conversa informal com os entrevistados, achei mais fácil optar por este tema, haja vista o curto espaço para a pesquisa e o conhecimento prévio sobre o tema.

Foquei-me no camelódromo da cidade de Campos dos Goytacazes para que esta pesquisa etnográfica fosse possível. A pesquisa, em que pese o pouco tempo para realizá-la, teve dois objetivos: 1) identificar quantos eram, escolaridade, tempo que atuam como camelô, se já trabalharam com carteira assinada, gênero – se maioria homem ou mulher-, se pretendem atuar no “mercado de trabalho formal”, renda; 2) construir através de alguns personagens, cuja escolha inicial se daria pelo tempo de atuação no mercado informal, trajetórias de vidas que pudessem fornecer um conhecimento mais aprofundado que a aplicação do questionário fechado não poderia alcançar.

A  hipótese que orientou esta pesquisa foi a de que a criação de um mercado para o trabalho informal implica no reconhecimento deste não mais como resquício de um passado a ser superado pela civilização industrial, mas, ao contrário, como condição do processo de exclusão permanente do sistema capitalista que gera sem parar uma “massa” de desempregados e, por isso, a intervenção do poder público na tentativa de ordenar o espaço público. Em outras palavras, a hipótese de que o camelô não é um personagem contingente nos espaços urbanos, mas permanente e que a fronteira entre formal e informal tem se tornado muito mais fluída e líquida do que era até o último quartel do século passado.

Quanto aos objetivos, o primeiro não foi atingido, posto que não consegui aplicar os questionários aos trezentos e cinquenta permissionários, de acordo com os dados da Prefeitura Municipal de Campos dos Goitacazes pela falta de tempo e também pela resistência de muitos. Já quanto ao segundo, entrevistei com maior pormenor trinta camelôs, o que me permitiu verificar o que abaixo transcrevo.



DAS DIFICULDADES ENCONTRADAS


Munida de uma leitura breve sobre o tema que embasou a construção do questionário me dirigi, ao camelódromo para dar início a pesquisa. De imediato procurei pelo presidente da associação com intuito de explicar-lhe a pesquisa, bem como para que o mesmo me apresentasse aos camelôs. Infelizmente não o encontrei e como o tempo era curto, não mais esperei pelo contato com o presidente da associação e me dirigi diretamente aos camelôs para realizar as entrevistas. A partir deste momento percebi que o “outro”, o “estranho”, o “exótico” era minha pessoa, minha presença num lugar em que não conhecia ninguém e, portanto, não tinha por parte deles a menor confiança.

Mesmo explicando que lá estava para fazer um trabalho para universidade, na verdade, ao invés de inquerir, algumas vezes fui inquerida e alguns com certa severidade. Não foram poucas às vezes em que no meio da explicação do que estava fazendo era cortada pelos entrevistados que passavam a assumir a condição de inquisidores. As perguntas mais comuns foram: “o resultado desta pesquisa vai ser entregue à prefeitura?”, “o que você fará com essas informações?”  Algumas pessoas diziam que não tinham tempo para responder, outras, após muitas explicações aceitavam responder o questionário, mas nem todas as perguntas. Perguntas como, por exemplo, remuneração, como conseguiram os “boxes” pareciam soar como uma intromissão descabida e sem propósito, uma invasão de privacidade cometida por uma estranha que “queria saber demais”.

Não foram poucas as resistências encontradas para conseguir as entrevistas, o que confirma a assertiva da necessidade de estabelecer laços de confiança com os entrevistados. Talvez, não posso afirmar com veemência, que a inserção no campo através da mediação do presidente da associação funcionasse como um facilitador e me impediria de ser vista como o “outro”, o “estrangeiro”. De toda a sorte, durante as duas semanas que tive para realizar e analisar as entrevistas com os empecilhos apontados me fez adotar as seguintes estratégias: 1) aplicar o questionário àqueles que se dispusera a responder; 2) anotar “mentalmente” algumas observações que considerava importante durante as conversas; 3) buscar dentre àqueles que responderam o questionário, os mais solícitos e com eles fazer a sua trajetória de vida.




DA PESQUISA

            O camelódromo instalado a mais de vinte anos no centro da cidade de Campos é um espaço que os comerciantes têm para vender suas mercadorias e para as pessoas que moram no local ou mesmo os “turistas” consigam comprar mercadorias a preços mais baixos do que em lojas comerciais. Pelas pesquisas que fiz, este espaço foi criado pela Prefeitura a mais de vinte anos com o intuito dos camelôs terem um espaço próprio e concentrado. No início os proprietários receberam o direito ao box por meio de um sistema de cadastro. O box não podia ser repassado por meio de venda ou de aluguel em hipótese alguma. Se o proprietário do box não quisesse mais, deveria devolvê-lo à prefeitura. Mas, com o passar dos anos, tudo o que não podia ser feito, ocorreu. Das trinta pessoas que eu entrevistei, só cinco são donas de fato do espaço. As outras pessoas venderam os boxes por preços semelhantes às de uma loja no centro da cidade,   outras passaram a alugar para terceiros. Funciona de domingo a domingo de acordo com cada proprietário. De segunda a sábado as bancas ou boxes abrem na sua maioria. O horário de funcionamento é de oito da manhã às dezenove e trinta nos dias de semana. Aos sábados funciona das oito às quatorze horas e aos domingos quem quiser abrir, não é obrigado, abre das oito horas até o meio dia. Durante a semana quem não tem interesse, fecha mais cedo, mas o horário de fechamento das bancas não pode ultrapassar o horário das dezenove e trinta horas.

Entrevistei em sua maioria jovens mulheres de 18 a 24 anos de idade, todos eles funcionários. Os mais velhos em idade, eram donos dos boxes. Dos donos, só consegui fazer a pesquisa com cinco pessoas porque as outras que se diziam donas, quando perguntava se queria participar da pesquisa diziam que não podia dar a entrevista naquele momento. A maioria dos entrevistados é do bairro de Guarus, mas,  há também pessoas que moram no bairro da Boa Vista, Jardim Carioca, Ururaí e só uma mora no centro da cidade.

A maioria das mercadorias que esses comerciantes vendem são celulares, baterias para os mesmos, pilhas, antenas para televisão, tinta para impressora, capas para Cds, Dvds, bolsas, mochilas, carteiras, cintos, óculos de sol, sombrinhas, sandálias do tipo rasteirinha, sandálias de plástico. Os box que vendiam Dvds e Cds pirata, os entrevistados pediram, quase imploraram para que eu não coloca-se que eles vendiam esse tipo de mercadoria na pesquisa. As mercadorias em média são compradas em São Paulo e de todos os entrevistados, um só disse que comprava direto do fornecedor em Macaé. Quando perguntava se eles tinham a nota fiscal das mercadorias, os entrevistados que eram funcionários diziam que não sabiam e os donos diziam que eu queria saber demais. Só uma entrevistada, a que compra as mercadorias direto do fornecedor  que deixou “escapar” que as mercadorias de São Paulo não tem nota fiscal.

Dos funcionários, o que mais me chamou a atenção foi que são jovens sem muita perspectiva de melhora da vida profissional. Trabalhando como camelôs com uma jornada de 10 horas diária de trabalho sem horário de almoço (almoçam no local), muitos deles não se importam em trabalhar sem carteira assinada. Alguns até acham que com o grau de escolaridade baixo, o que conseguiram já era muito. Outros, já haviam terminado o Ensino Médio e mesmo assim não lhes passava pela cabeça cursar uma universidade. Os entrevistados homens em especial, só falavam em cursos técnicos, pois para eles era o passaporte para um emprego certo. Das jovens que entrevistei só uma havia cursado uma universidade. Ela terminou o curso de Pedagogia na UFF- Niterói no ano passado, ou seja, em 2012 e estava trabalhando como camelô para passar o tempo. Perguntei por que não procurou um colégio particular para ministrar aulas, e a resposta que ela me deu foi que para ser explorada em lugar que paga pouco, ela não se importava em ser explorada ali no camelódromo, porque nesse tipo de ocupação ela estava ganhando melhor do que como professora e também não teria que aturar coordenador(a) e pais de alunos. Entrevistei também uma mulher de 32 anos, viúva e que é funcionária. Só ela pensa em trabalhar em uma empresa que assine sua carteira, mas só se obter um salário melhor do que ela ganha hoje e com horários flexíveis, pois tem um filho pequeno para criar. Entrevistei ainda um rapaz com 24 anos e que pensa em voltar aos estudos, mas não para trabalhar em empresa e sim para concretizar o sonho de ter um curso profissionalizante e quem sabe abrir seu próprio negócio. Quando perguntei porque não queria trabalhar em uma empresa e ter um trabalho com carteira assinada, a resposta que ele me deu é que não gostaria de passar pela vergonha de dizer que é um ex- presidiário.

Em média o que os entrevistados que são funcionários ganham são dois salários mínimos mais auxílio alimentação, auxílio transporte, 13° salário no fim do ano e 1/3 de férias. O que distingue um trabalhador formal para o informal, no caso deles é justamente o que os fariam não serem informais, a carteira de trabalho assinada.

Já os donos das bancas ou box, que foram cinco os entrevistados,dois homens e três mulheres, todos eles com mais de quarenta anos, se sentiam satisfeitos pois além de não estarem trabalhando ou sendo explorados por outros (eles quem exploram), para o que ganham está muito bom, “bom até demais”, é a fala de um deles, porque além de não terem um grau de instrução elevado, tiram em média por mês, em torno de 10 a 12 mil reais bruto. Para essas cinco pessoas, além do salário bem elevado para quem não teve “tempo” para estudar, serem “donos” de si, é o maior orgulho. O mais interessante acerca dos camelôs que são donos das próprias bancas, foi uma senhora de cinquenta anos, que além de ter aquela banca, ela tem mais duas,  uma em sociedade com a filha, que fica situada  na praia do Morro em Guarapari, que rende em média por mês 14 mil reais bruto e outra dela mesma em Aracruz no Espírito Santo, que rende em média 10 mil reais bruto. Ela vende na banca sandálias, tipo rasteirinha e sandálias de plástico. Perguntei a ela porque três bancas em lugares diferentes, e ela me respondeu que era um sonho que ela estava concretizando depois de um casamento de anos mal sucedido.



Conclusão do estudo etnográfico:

Posso concluir que no período de duas semanas, três dias de entrevista em cada semana, e em horários diferentes, a realidade das pessoas jovens que eu entrevistei, é que não importa o que elas realizam nos seus trabalhos, se são exploradas ou não, se tem carteira assinada ou não, o que importa mesmo é o hoje, e o que eles precisam hoje  é de uma ocupação que dê a eles um meio de estarem com dinheiro. E não importa também o amanhã. A carteira assinada não é o fator principal, o dinheiro que ganham é o que vale a pena para eles. Contentam-se em serem vendedores e não tem objetivo traçado, uma meta para o futuro. Se  tem dinheiro para pagar o lazer no final de semana e não estão passando fome é o que importa. Dos entrevistados jovens, só duas mulheres tinham filhos e moram com seus pais. Essas sim pensam em voltar aos estudos, mas não agora. Dos entrevistados mais velhos, eles disseram que fizeram um bom negócio quando escolheram trabalharem para eles. Uma das entrevistadas, disse que se trabalhasse em uma loja, por exemplo, ela jamais iria comprar um terreno, construir uma casa confortável com piscina e jardim e não teria condições de comprar um carro do ano, “em  parcelas,” diz ela.

A pesquisa que fiz foi importante para que eu tivesse um retrato do que acontece hoje na cabeça dos jovens das classes desfavorecidas e que no mundo do trabalho informal, o que importa, é o hoje, não estão preocupados com o amanhã, a carteira de trabalho assinada não é mais o sonho de muitos. Para os entrevistados mais velhos, como ganham hoje acima da média para o grau de instrução que tem, o hoje também  é o mais importante porque o que resta para eles é viverem a vida, trabalhar, ter algum lazer com a família no final de semana. Já para o futuro, três deles disseram que fazem uma poupança para se algum dia precisarem ficar parados por estarem doentes. 



REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BIONDI, Karina. Junto e Misturado: Uma etnografia do PCC. ED. Terceiro Nome


FREITAS, Carlos Roberto Bastos. O Mercado Municipal de Campos dos Goytacazes: A                       sedução      persistente de uma instituição pública. UENF,2006.





Apresentado como requisito à obtenção de grau da disciplina de Antropologia II.
 






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